Bets da juventude
Jovens de 18 a 24 anos são os que mais apostam e os mais prejudicados mentalmente
Publicado em 21 de dezembro de 2025 • Produção coletiva — Curso de Jornalismo de Dados
Quanto menor a faixa etária, maior é a porcentagem daqueles que já apostaram em bets, aponta pesquisa Datafolha. Questionados sobre se já fizeram apostas esportivas online ou se ainda costumam fazer, 39% dos jovens de 18 a 24 anos disseram que sim, a maior porcentagem por faixa etária dentre aquelas avaliadas na pesquisa. O valor também é acima da porcentagem para o total da amostra, de 18%.
Um estudo da ANBIMA (2025) mostra que a Região Sudeste concentra 38% dos indivíduos com alta tendência ao vício em jogos. A análise está alinhada às observações do ambulatório especializado em Transtorno de Jogo (PRO-AMJO) da USP em São Paulo, onde o perfil de quem busca ajuda tem migrado para jogadores jovens endividados devido às apostas de azar.
As apostas conhecidas como quota fixa, especialmente as esportivas, alimentam a sensação de controle e a ideia de que é possível “manipular resultados”. O jogador permanece imerso em dados estatísticos e padrões, acreditando ser capaz de prever o resultado, mesmo quando os desfechos são, em essência, aleatórios. Outros fatores incluem o marketing intensivo e agressivo em redes sociais e a promessa de ascensão social para jovens de baixa renda.
Relação entre faixa etária e apostas
O segundo grupo com mais casos foi o de 25 a 34 anos, com 35%. Já o menor foi o dos mais velhos, de 60 anos ou mais, com 3%.
Os dados são de pesquisa Datafolha realizada em 5 e 6 de novembro de 2024. O levantamento foi feito com 1935 pessoas de 18 anos ou mais, em 113 municípios brasileiros. A margem de erro para o total da amostra é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. Para o grupo de 18 a 24 anos, a margem de erro é de 6 pontos percentuais, e para todas as outras faixas etárias é de 5 p.p.
Considerando a margem de erro, pode haver empate entre os dois grupos mais jovens, mas eles se distanciam significativamente dos mais velhos. O terceiro agrupamento que mais respondeu sim, por exemplo, foi daqueles com 35 a 44 anos, com 16%.
Já em relação a quanto dizem gastar por mês com as apostas esportivas online, gasta mais aqueles de 25 a 34 anos, com média de R$315. Para o total da amostra, o valor é de R$216. Entre o grupo mais jovem, a média é de R$138. Já os mais velhos, com mais de 60 anos, são os que menos relataram fazer apostas: R$79 por mês.
Relação das apostas com o prejuízo para a saúde mental
Um estudo da USP (2024) aponta que jovens de 18 a 25 anos são o grupo com maior propensão a comportamentos impulsivos em relação a jogos de azar online. Além disso, dados populacionais do LENAD III (UNIFESP) mostram que 55,2% dos adolescentes apostadores (14 a 17 anos) já manifestam algum tipo de comportamento de risco ou problemático.
No ambulatório especializado em Transtorno de Jogo (PRO-AMJO/USP), em São Paulo, o perfil dos pacientes passou por uma mudança, indo de jogadores eletrônicos na faixa dos 40 anos para jovens endividados por apostas esportivas, refletindo uma crise concentrada no Sudeste, região com 38% dos casos de alta predisposição ao vício e 35,3% de prevalência de jogo problemático entre apostadores, apesar de o Nordeste liderar com 52,3%. Nacionalmente, o pico está nos jovens de 18 a 29 anos (42% dos apostadores), especialmente nos de 18 a 24 com 39% já tendo experimentado apostas online e maior impulsividade, conforme estudo da USP de 2024.
Referente aos danos desencadeados pelos jogos de apostas é importante frisar os danos sociais e de saúde pública. Segundo o estudo “Jogos e Apostas: Impacto e Estratégias para a Saúde Pública”, realizada pelo Ministério da Saúde em julho de 2025, é esperado o aumento de 104% em atendimento de jovens com transtornos de Transtorno do Jogo (CID-F63) e Mania de Jogos de Aposta (CID-Z72.6) até 2028.
Um estudo da Inglaterra OHID apontem custos relativos em casos de suicídio e depressão em detrimento dos jogos de apostas. Na análise de 2023, foram contabilizados custos diretos e indiretos associados a apostas no âmbito da saúde. Segundo estudo do LENAD III (2025 Unilep e Ministério da Justiça), cerca de R$30,6 bilhões são ligados à saúde, sendo R$17 bilhões por mortes adicionais por suicídio, R$10,4 bilhões por perda de qualidade de vida com depressão, R$3 bilhões em tratamentos médicos para depressão; os demais perderam seus lares (R$1,3 bilhões), a benefícios de seguro-desemprego (R$2,1 bilhões) e ao encarceramento por atividade criminal (R$4,7 bilhões). Ao todo, 78,8% (R$30,6 bilhões) estão associados a custos ligados à saúde.
Sobre o gasto com apostas e renda familiar
A vulnerabilidade pode ser evidenciada no grupo de baixa renda. Segundo amostra do LENAD III, entre quem ganha menos de um salário-mínimo, 52,8% desenvolvem Jogo de Risco, mais que o dobro dos de alta renda (21,1%), com gastos médios de R$380/mês, consumindo 23% da renda dos jovens de 18 a 29 anos.
Dos afetados, 27% deixam de comprar itens essenciais e 21% atrasam o pagamento de contas. De acordo com o Banco Central do Brasil, 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família apostaram R$3 bilhões via Pix em agosto de 2024, resultando em endividamento expressivo.
O vício em apostas
Apostas digitais (bets) configuram-se como a segunda modalidade de aposta mais popular, abrangendo 32,1% dos brasileiros, o equivalente a cerca de um terço da população, e apresentando um alcance significativo em relação às apostas tradicionais. Estima-se que 9 milhões de brasileiros utilizem essas plataformas de forma ativa, ou seja, de maneira frequente, número que supera o jogo do bicho, que conta com 28,9% de usuários, evidenciando uma mudança no padrão de consumo de apostas no país.
A principal categoria de apostas é a aposta de quota fixa, na qual o apostador conhece previamente o valor do prêmio a ser recebido no momento da aposta, definido por multiplicadores previamente estabelecidos. Esse tipo de aposta está associado a eventos reais, como jogos de futebol, além de jogos de cassino online. O “Jogo do Tigrinho” (Fortune Tiger) também está incluído nessa modalidade, concentrando cerca de 12,4% dos jogadores, o que demonstra a popularização dos jogos de azar digitais baseados em resultados totalmente aleatórios, determinados por geradores randômicos de números, símbolos e figuras.
A relação entre o acesso às plataformas digitais e as modalidades tradicionais está associada à facilidade de acesso: se antes era necessário sair de casa para realizar apostas, hoje elas estão disponíveis em simples cliques. Essa mudança amplia a frequência de uso e reduz barreiras de controle, contribuindo para comportamentos de maior risco e padrões problemáticos de uso. Nesse contexto, 66,8% dos usuários de plataformas digitais apresentam esse tipo de comportamento, proporção significativamente superior aos 26,8% observados entre usuários de modalidades tradicionais, indicando maior vulnerabilidade associada às apostas on-line.
As plataformas de apostas utilizam designs modernos, com estímulos visuais atraentes que contribuem para a perda de controle. Nos cassinos on-line, não há necessidade de interação com outros jogadores ou adversários, e o sistema é programado em fluxo contínuo, oferecendo estímulos constantes, disponíveis 24 horas por dia. Outro mecanismo predominante é a facilidade de realizar pagamentos rápidos dentro da própria plataforma, como o PIX e os depósitos imediatos de fundos.
Regulação e Vício
A regulação das plataformas de apostas online passou por mudanças recentes, com a aprovação da Lei 14.790/2023, que definiu critérios para consolidação dessa modalidade no Brasil. Empresas que pretendem explorar esse mercado precisam, por exemplo, manter sites sob domínio “bet.br”, para melhor identificação pelos usuários.
Outros requisitos limitam o acesso por menores de 18 anos às plataformas de apostas online. Portarias do Ministério da Fazenda também regularam o setor, passando a exigir reconhecimento facial e validação de CPF, além do oferecimento de mecanismos de controle, em que as empresas operadoras de jogos passam a ser obrigadas a implementar ferramentas para mitigar o comportamento de risco, tais como:
- Limites de depósito e tempo: O apostador define o valor máximo que pode gastar ou o tempo em que deve ficar logado no site de apostas.
- Alertas de comportamento compulsivo: O sistema deve enviar avisos automáticos caso detecte um padrão de aposta compulsiva ou tempo excessivo de uso.
- Sistemas de autoexclusão: O usuário pode solicitar o bloqueio voluntário de seu acesso por períodos que variam de dias a meses. Há propostas para unificar esse sistema nacionalmente para evitar migração entre sites.
Há outras formas de promover maior controle de acesso a sites de apostas, do ponto de vista financeiro, como a restrição ao cadastro de pagamento por cartão de crédito, o uso de auxílios sociais (como o Bolsa Família), além da proibição da oferta de bônus, quando as casas de apostas oferecem bonificações para atrair mais apostadores.
A legislação vigente e órgãos como o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) também atuam para controlar a publicidade de bets, proibindo a apresentação das apostas como forma de investimento, alternativa ao emprego ou solução para dificuldades financeiras, bem como o uso de celebridades nessas peças publicitárias e a veiculação dessas propagandas em horários de alta audiência juvenil na TV.
Gráficos
Autoria e contexto:
Artigo publicado por Sheila Barcellos, a partir de uma produção coletiva
desenvolvida no curso de Jornalismo de Dados do Senac Scipião,
no contexto de um grupo de estudos. Integrantes: Alexandre Cardoso, Isabella Almeida, Isabella Oliveira, Joyce Oliveira, Roberto Magalhães, Sheila Barcellos. Docente: Andrea Limberto